“Minha querida, eu não sei o que fazer hoje, me ajude a decidir. Eu deveria me cortar e derramar meu coração nessas páginas? Ou deveria ficar sentado e não fazer nada, ninguém está exigindo nada, afinal. Eu deveria saltar do precipício em que meu coração bate e desenvolver minhas asas na queda? Ou eu deveria me afastar do abismo e deixar que os outros lidem com essa coisa chamada coragem? Deveria eu olhar de volta para o abismo existencial que me assombra e tentar desesperadamente agarrá-lo a partir de um senso de mim mesmo? Ou deveria eu seguir andando meio dormindo, meio olhando pra ele de vez em quando, em momentos em que não posso fazer nada além? Devo me matar ou tomar uma xícara de café?”
— Albert Camus.
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sábado, 27 de julho de 2013
terça-feira, 16 de outubro de 2012
[in]sensibilidade
Quando tu põe muita expectativa nas coisas, te decepciona mais do que deveria, espera mais do que pode, sofre mais do que o saudável, deseja mais do que pode, ri muito e chora muito, briga muito e insiste muito, exagera e transborda desejos, intensifica situações e confunde a realidade com a tua própria mente...
Enfim, quando tu é sensível demais, em algum momento isso vai se desgastar. Em um momento o teu mundo vai colidir com o mundo de fora e tu vai ter de conciliar isso. E não vai conseguir, porque intensifica tudo muito mais do que realmente é. Espera muito das pessoas e dos ambientes que encontra na vida. Desilusões demais. Tu abandona a razão e vive de emoções. Tu busca a arte, a expressão, a ti mesmo. Mas o mundo não quer a ti, não quer um indivíduo que sinta. Alguém que viva de paixões, alguém que seja tão dionisíaco. O mundo quer forma, não conteúdo.
Nem o mundo e nem as pessoas. Ambos vão te chutar, te fazer engolir as lágrimas e baixar a cabeça, pôr os punhos fechados nos bolsos. Tu é sensível demais para permitir que outros sentimentos existam junto aos teus. É o que chamam de egoísmo, penso eu.
E aí é que acontece o pior: tu te tornas, aos poucos, menos sensível. Tu levanta a cabeça e chuta quando te chutam. Tu mantém uma mão estendida e a outra fechada no bolso, pronta para se defender do mundo. Tu entende que o emocional pode ser controlado, pode ser acalmado, dopado, e dar lugar pro físico, pro útil, pro imediato.
Não mais sonhos, não mais sentimentos, apenas vontades. Tu te tornas pura vontade, sem expectativas e sem arrependimentos. Tu te tornas - e eu temo ser a única palavra descritiva para isso - aquilo que tu sempre desprezou: o insensível.
domingo, 1 de abril de 2012
melville
“Teus pensamentos criaram uma criatura em ti; aquele cujo intenso pensamento o transforma assim num Prometeu, um abutre pasta em seu coração para sempre, sendo o abutre a própria criatura por ele criada.”
— Herman Melville
— Herman Melville
sábado, 31 de março de 2012
intoxicado de sentir
O isqueiro acende o cigarro, que é tragado e repousado sobre um cinzeiro improvisado em uma saboneteira. Um copo com um líquido escuro é derramado em sua boca, seguido de uma tosse áspera. A mão treme e segura a caneta, mergulhando a ponta em um tinteiro. Uma lágrima cai sobre o papel estendido na mesa, e outra tragada no cigarro a segue. Soa um instrumento fortemente soprado, o que parece remeter a algo antigo e rústico. Mas não há mais ninguém ali, apenas o disco tocando, a fumaça dançante e o café amargo no copo opaco.
Ele percorre o indicador sobre a pequena mancha da lágrima sobre a folha e risca uma frase com o nanquim: "Intoxicado de tanto sentir".
Ele percorre o indicador sobre a pequena mancha da lágrima sobre a folha e risca uma frase com o nanquim: "Intoxicado de tanto sentir".
they might need rain
Os mortos não precisam comer ou beber. Também não precisam de perfume ou de algum traje que os aqueça. Nem de cigarros ou de café, suponho.
Mas devem precisar da chuva.
Mas devem precisar da chuva.
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